Em 1941a 20 de Janeiro, Bela Bartok estreia em NYC o seu String Quartet nº 6
É a última obra que ele escreveu na Hungria, em 1939, já com a sombra do exílio e da guerra bem presente. E isso sente-se. Cada andamento começa com aquele “Mesto” (triste, melancólico), como se a música respirasse sempre a mesma dor, mas vista de ângulos diferentes. Esse refrão emocional vai-se transformando: primeiro contido, depois mais pesado, até chegar ao fim… onde já não há fuga possível.
O que eu acho especialmente bonito (e duro) neste quarteto é:
a sensação de despedida — não é dramática no sentido romântico, é seca, lúcida, quase resignada;
a forma como Bartók mistura a sua linguagem moderna com ecos de canto popular, mas tudo filtrado por uma tristeza muito pessoal;
o último andamento, lento e inteiro em “Mesto”, que parece aceitar o silêncio como destino.
Não é uma obra “agradável” no sentido fácil — mas é profundamente honesta. Daquelas que não consola, mas acompanha.
No ano de 1941 a 3 de Janeiro, Rachmaninov estreia as Danças Sinfónicas, interpretada pela Orquestra de Filadélfia, sobra a direcção de Ormandy Danças Sinfónicas, Op. 45, é Rachmaninov em estado de despedida — e isso sente-se em cada compasso.
Foi a última obra que ele concluiu (1940), já no exílio, nos EUA. É como se ele olhasse para trás, para toda a vida, e dissesse: “é isto que sou”.
O que torna a obra tão especial
1. Três movimentos, três estados de alma
I. Non allegro – começa quase sombrio, anguloso, rítmico. Há uma tensão contida, uma energia nervosa. É moderno, quase brutal em certos momentos, mas com aquela melancolia russa impossível de esconder.
II. Andante con moto (Tempo di valse) – uma valsa fantasmagórica. Não é uma valsa para dançar; é uma valsa para lembrar. Há ironia, sombra, algo que gira sem nunca se
libertar.
III. Lento assai – Allegro vivace – aqui está o coração da obra. O confronto final entre dois mundos:
o Dies Irae (tema da morte, obsessão de Rachmaninov)
versus o cântico “Blagoslovén yesi, Gospodi” (ressurreição, luz).
No fim, a luz vence. E isso é raro nele.
2. Uma autobiografia musical
Ele cita a si próprio (ecos da Sinfonia nº 1, dos Vésperas), como quem folheia memórias. Não é nostalgia açucarada — é lucidez. Um homem velho, consciente do tempo, mas ainda combativo.
3. Orquestração magistral
Clara, seca às vezes, rítmica, quase “cortante”. Nada do excesso romântico juvenil. É um Rachmaninov depurado, maduro, com músculo e silêncio.