Sinfonia nº 15, op. 141, do Shostakovitch é daquelas obras que parecem sorrir enquanto escondem o abismo. Última sinfonia dele — e isso pesa em cada compasso.
À primeira vista, Lá maior sugere luz, resolução, até serenidade. Mas com o Shostakovitch nada é inocente. Esse “lá maior” soa quase irónico, como uma máscara colocada num rosto cansado.
O 1.º andamento começa quase como um brinquedo mecânico, leve, cheio de referências (o famoso aceno ao Guilherme Tell de Rossini). Parece infantil… mas é uma infância estranha, deslocada, como se a memória estivesse rachada.
O 2.º andamento (Adagio) é o coração da obra. Aqui já não há jogo: é desnudamento. Os solos (violoncelo, trombone) soam como vozes solitárias, quase confessionais — música que respira dificuldade, doença, fim.
O final mistura citações de Wagner (Tristão, Valquírias) e uma sensação de despedida que nunca se resolve. Os sinos, os silêncios, o esvaziar progressivo… não há triunfo, só aceitação ambígua.
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