terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Brahms-Variações sobre um tema de Schumann Op. 23

Em 1864 a 12 de Janeiro,  Brahms estreia em Viena a obra Variações sobre um tema de Schumann Op. 23, para piano a quatro mãos

O que o Brahms faz aqui é quase um ato de intimidade. O tema vem do Álbum para a Juventude, Op. 68, nº 11, do Schumann — uma melodia simples, quase doméstica. Mas o contexto muda tudo: Brahms escreve estas variações em 1854, quando Schumann já estava à beira do colapso mental e Clara se tornava o centro emocional da vida dele. Ou seja, não é só música: é memória, lealdade e contenção afetiva.

Musicalmente, acho fascinante como Brahms evita o virtuosismo ostensivo.
Nada de pirotecnia gratuita. As variações são:

  • densas, mas nunca pesadas

  • contidas, quase pudicas

  • profundamente contrapontísticas, como quem pensa mais do que confessa

Há ali um diálogo constante entre forma clássica e emoção romântica reprimida. Algumas variações parecem sussurrar — outras caminham com uma solenidade grave, quase fúnebre, sem nunca cair no desespero explícito Tema

É de uma simplicidade quase desarmante. Ingénuo à superfície, mas já com aquela melancolia schumanniana de fundo. Brahms não o “embelezou”: ele respeitou-o. Isso é importante — tudo o que vem depois nasce dessa fidelidade.

Variação I
Brahms começa com cuidado extremo. O tema ainda está ali, reconhecível, mas envolto num leve véu harmónico. É como se dissesse: “não vou tocar no que é frágil sem pedir licença.”

Variação II

Mais movimento interior, mas ainda contido. A mão esquerda ganha voz — algo muito brahmsiano. Já não é só melodia: é pensamento. Aqui começa a reflexão.    Variação III

Uma certa doçura melancólica. Nada de brilho. Parece uma lembrança vista à distância, com ternura, mas sem nostalgia excessiva. Clara está muito presente neste clima.

Variação IV
Mais densidade rítmica. O discurso fica mais sério, quase severo. Brahms mostra o lado estruturador, clássico, como quem se agarra à forma para não se perder na emoção.

Variação V
Aqui o contraponto respira melhor. As vozes conversam entre si — não há protagonista absoluto. Isto soa quase como um diálogo interior, ou uma conversa que nunca aconteceu.

Variação VIUma das mais sombrias. Harmonia mais fechada, peso emocional maior. Não é desespero — é gravidade. A dor aqui é pensada, não chorada.

Variação VII
Mais fluida, quase um alívio momentâneo. Como um raio de luz tímido, mas passageiro. Brahms permite-se respirar… por instantes.

Variação VIII
Volta a introspeção. O tema está fragmentado, como memória que se recompõe aos pedaços. Muito humana esta variação.

Variação IX
Talvez a mais “brahmsiana” no sentido pleno: textura espessa, vozes entrelaçadas, tempo suspenso. Aqui já não é Schumann — é Brahms falando através de Schumann.

Variação XClareza e recolhimento. Parece preparar algo, mas sem dramatizar. É uma transição emocional, não técnica.

Variação XI
Uma serenidade madura. Não há tensão, não há luta. Apenas permanência. Isto soa a aceitação — talvez a mais bela forma de fidelidade.

Final (Andante)

Nada de triunfo, nada de encerramento grandioso. É um despedir-se em voz baixa. O tema regressa como quem se senta ao lado de alguém em silêncio. A música não conclui — permanece.

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