Foi a última obra que ele concluiu (1940), já no exílio, nos EUA. É como se ele olhasse para trás, para toda a vida, e dissesse: “é isto que sou”.
O que torna a obra tão especial
1. Três movimentos, três estados de alma
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I. Non allegro – começa quase sombrio, anguloso, rítmico. Há uma tensão contida, uma energia nervosa. É moderno, quase brutal em certos momentos, mas com aquela melancolia russa impossível de esconder.
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II. Andante con moto (Tempo di valse) – uma valsa fantasmagórica. Não é uma valsa para dançar; é uma valsa para lembrar. Há ironia, sombra, algo que gira sem nunca se
libertar.
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III. Lento assai – Allegro vivace – aqui está o coração da obra. O confronto final entre dois mundos:
o Dies Irae (tema da morte, obsessão de Rachmaninov)
versus o cântico “Blagoslovén yesi, Gospodi” (ressurreição, luz).
No fim, a luz vence. E isso é raro nele.
2. Uma autobiografia musical
Ele cita a si próprio (ecos da Sinfonia nº 1, dos Vésperas), como quem folheia memórias. Não é nostalgia açucarada — é lucidez. Um homem velho, consciente do tempo, mas ainda combativo.
3. Orquestração magistral
Clara, seca às vezes, rítmica, quase “cortante”. Nada do excesso romântico juvenil. É um Rachmaninov depurado, maduro, com músculo e silêncio.
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