O que mais me encanta nele é como Bomtempo caminha entre o Classicismo e um Romantismo ainda em germinação. Dá para sentir claramente a herança de Mozart (sobretudo na elegância formal e no diálogo orquestra–piano), mas já há ali uma vontade expressiva mais livre, quase confessional em certos momentos — algo que antecipa o clima romântico.
O primeiro andamento tem brilho e clareza, com um piano que não é apenas virtuosístico, mas cantabile, quase vocal. Não é exibicionismo vazio: o piano fala, argumenta, respira.
No andamento lento, Bomtempo mostra o seu lado mais íntimo — há uma melancolia contida, muito nobre, sem excessos sentimentais.
E o final recupera leveza e energia, com graça rítmica e um espírito muito “salonístico”, mas bem construído.
Também acho importante dizer: este concerto tem um valor simbólico enorme. Bomtempo estava, de certo modo, a dizer “Portugal também escreve música de concerto à altura da Europa” — e escreve mesmo. Não soa provinciano nem derivativo demais; soa honesto e bem pensado
é um concerto elegante, lírico, de bom gosto, que não grita, mas convence.
Não tenta ser Beethoven — e ainda bem. É Bomtempo, com a sua voz clara e um certo pudor emocional que, para mim, só o torna mais interessante.