É daquelas obras que parecem dizer: “a vida comum também merece uma sinfonia.”
Escrita entre 1902 e 1903, em Fá maior, é talvez uma das obras mais íntimas e ousadas de Strauss — e, ao mesmo tempo, uma das mais mal-compreendidas.
Strauss faz algo quase provocador: transforma o quotidiano familiar numa grande sinfonia.
Ali estão, musicalmente retratados:
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o pai (ele próprio),
a mãe (Pauline, a esposa),
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o filho,
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discussões conjugais,
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brincadeiras,
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o adormecer da casa ao fim do dia.
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Orquestra gigantesca (Strauss nunca foi tímido 😄)
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Uso magistral do leitmotiv (quase wagneriano)
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Harmonia rica, cromática, mas sempre com um pé no lirismo
Um equilíbrio curioso entre grandiosidade sinfónica e ternura doméstica
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humor irónico,
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calor humano,
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tensão real (as discussões conjugais não são nada suaves),
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e um final sereno, quase reconciliador, quando a casa adormece.
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heroica como Ein Heldenleben,
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nem trágica como Morte e Transfiguração.
Para muitos críticos da época, isto soou a egocentrismo:
“Como assim uma sinfonia sobre escovar os dentes e embalar um bebé?”
Mas Strauss responde com música — e que música.
Musicalmente falando
Há momentos de:
Strauss afirma, sem pedir licença, que:
o amor vivido, imperfeito e cotidiano, é matéria digna de arte elevada.
Não é o amor idealizado — é o amor vivido, com ruído, rotina, cansaço e ternura.
E isso dá-lhe uma força muito particular.
Em resumo
A Sinfonia Doméstica não é:
Mas é profundamente humana.
Uma obra que diz: “a grande epopeia pode estar dentro de casa.”
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