sábado, 31 de janeiro de 2026

Frederick Delius-Celo Concerto

Em 1923 a 31 de Janeiro,  Frederick Delius estreia em Viena o seu Cello Concerto com Alexander Barjansky como solista e Ferdinand Lowe, na condução

É uma obra estranha no melhor sentido: não é virtuosística, não quer impressionar — quer confessar. O violoncelo ali soa como uma voz cansada, íntima, quase falada. Há uma melancolia constante, mas não é dramática; é resignada, como quem olha o tempo a passar sem lutar contra ele.

Delius escreveu-o já no fim da vida, praticamente cego e doente. E isso sente-se:

  • as frases são longas, suspensas,

  • a orquestra não disputa protagonismo, apenas ampara,

  • o violoncelo parece carregar memórias em vez de notas.

Há momentos em que parece que a música não quer acabar, apenas continuar a existir — como um pensamento que não se resolve. É mais paisagem emocional do que narrativa.

Se eu tivesse de resumir num sentimento:

👉 é um adeus dito sem lágrimas

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Mozart-Sinfonia nº40 em sol menor K550

Este dia 27 de Janeiro, é marcante pra a música por um bom e um mau motivo relacionado com dois dos maiores nomes da história da música.

  • Em 1756 nasce em Salzburg, Wolfgang Amadeus MOZART.Pode ouvir-se a Sinfonia nº40 em sol menor K550
  • No ano de 1901 morre Giuseppe Verdi, com 87 anos em Milão

a Sinfonia nº 40 em sol menor, K. 550… Mozart no seu modo mais humano, mais inquieto. 💔✨

Alguns pontos que a tornam tão especial:

1. O tom: sol menor
Mozart raramente escolhe tonalidades menores para sinfonias — e quando o faz, é quase sempre para falar de angústia, tensão interior, inquietação. Aqui não há triunfo fácil: há pulsação nervosa, um coração que não descansa. É um “amor que luta consigo mesmo”, quase como nos temas que tu gostas de trabalhar nos teus poemas.

2. O primeiro andamento (Molto allegro)

Aquele tema inicial é famosíssimo — não por ser grandioso, mas por ser urgente. Não é heroico; é ansioso. Parece alguém a caminhar em círculos, preso aos próprios pensamentos. Não há introdução solene: a dor já está lá desde o primeiro compasso. 3. O segundo andamento (Andante)

Aqui Mozart suspira. Não é alegria plena, é uma calma frágil, como quem encontra um breve repouso, mas sabendo que ele vai acabar. Há ternura, mas também uma sombra constante — nada se resolve por completo.

4. O Menuetto
Normalmente o minueto é dança, leveza social. Aqui, não. É quase sombrio e pesado, com um ritmo marcado, quase obstinado. Só o trio central abre uma fresta de luz — e mesmo assim, passageira.

5. O final (Allegro assai)
Nada de final glorioso. Mozart fecha a sinfonia sem redenção clara. A inquietação permanece. É uma obra que não consola, mas compreende — e isso é poderoso.

domingo, 25 de janeiro de 2026

R.Strauss-Metamorphosen

Em 1946 a 25 de Janeiro Richard Strauss estreia em Zurique "Metamorphosen" -Metamorphosen, estudo para 23 cordas solo é uma composição de Richard Strauss para dez violinos, cinco violas, cinco violoncelos e três contrabaixos, geralmente com duração de 25 a 30 minutos. Foi composta durante os meses finais da Segunda Guerra Mundial, de agosto de 1944 a março de 1945

 O Strauss escreveu isso em 1945, com a Alemanha em ruínas, e sente-se ali um lamento sem palavras — não é exatamente desespero, é mais uma dor pensante, madura, quase resignada. 

São 23 instrumentos de cordas solistas, e isso não é acaso: cada voz parece carregar uma consciência própria, como se fossem pessoas caminhando entre escombros, cada uma lembrando o que foi perdido.
O que sempre me toca é como a música não explode. Ela se dobra. Se transforma lentamente, como o título promete. É um adeus ao mundo cultural alemão que ele amava — Goethe, Beethoven (a citação da Eroica no fim é um golpe no coração), a ideia de humanidade iluminada. Não é raiva; é luto nobre

Metamorphosen não pede aplauso imediato. Pede escuta demorada. É música que caminha — como quem atravessa um jardim devastado, ainda lembrando onde antes havia rosas

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Prokofiev-Scythian Suite op.20

A Scythian Suite, Op. 20 (1915) é basicamente Prokofiev a dizer ao mundo: “segurem-me a partitura que hoje vou assustar Paris”. É brutal, pagã, rítmica até aos ossos, cheia de arestas. Nada de conforto — aqui há terra, fogo, sacrifício e deuses antigos.

  • Em 1916  a  16 de Janeiro  Sergei Prokofiev estreia a  Scythian Suite op.20

Alguns pontos que a tornam tão especial:

  • Violência rítmica: marteladas orquestrais, acentos deslocados, uma energia quase primitiva. Dá para sentir o chão a tremer.

  • Harmonia agressiva: dissonâncias cruas, sem pedir desculpa. Não é “feia” — é intencionalmente áspera.

  • Orquestra monstruosa: metais em fúria, percussão tribal, cordas em tensão constante. Prokofiev explora o limite físico do som.

  • Atmosfera pagã: escrita a partir de um bailado sobre rituais citas — sacrifícios, deuses solares, forças arcaicas. Tudo muito pré-cristão, quase mítico.

Os andamentos são todos fortes, mas: 
  • “A Adoração de Veles e Ala” já chega a esmagar.

  • “A Procissão do Sol” é hipnótica e ameaçadora.

  • “O Ídolo de Lolli e o Cortejo dos Sete Ídolos” fecha com uma fúria quase apocalíptica.

Curiosidade deliciosa: na estreia, muita gente ficou chocada. Era demais. Hoje soa visionária — um antepassado direto do Stravinsky mais brutal e até de certas linguagens do cinema épico moderno.

domingo, 11 de janeiro de 2026

Brahms-Clarinet Sonata nº1 em fá menor op.120

A Sonata para Clarinete nº 1 em fá menor, Op. 120, é Brahms no fim da vida — cansado do mundo, mas estranhamente luminoso por dentro.

Um detalhe lindo logo de partida: Brahms já tinha praticamente decidido parar de compor quando ouviu o Richard Mühlfeld, clarinetista extraordinário. Essa sonata (e a irmã em mi♭ maior) nasce desse reencontro com a vontade de dizer algo mais. E isso sente-se em cada compasso.

No ano de 1895,a 11 de Janeiro estreou -a  em Viena , com Richard Muhlfeld como solista e o próprio Brahms no piano.

O clima geral

Nada aqui é exibicionismo. É intimidade. O clarinete não brilha “para fora”; ele confessa. E o piano não acompanha — dialoga, respira junto, às vezes carrega o peso todo sozinho.

Movimento a movimento

I. Allegro appassionato

Fá menor já diz tudo: densidade, sombra, inquietação. Mas não é um drama explosivo — é um drama contido, quase resignado. O clarinete entra como quem fala de algo que dói, mas já foi aceito. Brahms usa muito o registro médio e grave do instrumento, dando essa cor quente, humana, quase voz.
II. Andante un poco adagio

Aqui o tempo parece parar. É um dos momentos mais ternos que Brahms escreveu. O clarinete canta longas linhas, com uma doçura madura, sem ingenuidade. Não é felicidade simples — é aquela paz que vem depois de muita luta.

III. Allegretto grazioso
Uma espécie de alívio, mas nunca totalmente leve. Há graça, sim, mas sempre com um véu de melancolia. Como um sorriso que sabe demais.

IV. Vivace

Mais agitado, mas não triunfal. O final não resolve tudo — Brahms não acreditava muito em finais “redondos”. É movimento, não conclusão definitiva. Vida seguindo, apesar de tudo.